Diogo Barbosa Machado. Biblioteca Lusitana. Tomo 3. (Lisboa: Na Officina de Ignacio Rodrigues, 1747): 422b-424a.

D. MARIA DE GUADALUPE LANCASTRO E CARDENAS. VI. Duqueza do grande Estado, e Casa de Aveiro naceo em o Palacio della, situada no lugar de Azeitaõ do Patriarchado de Lisboa, em o anno de 1630. Foraõ seus claros Progenitores D. Jorge de Lancastro II. Duque de Aveiro, e I. Marquez de Torres-Novas, e D. Anna Maria Manrique de Cardenas sua Prima segunda, filha de D. Bernardino de Cardenas III. Duque de Maqueda, e de D. Luiza Manrique de Lara V. Duqueza de Naxera. Sendo segunda produçaõ de taõ augusto consorcio mereceo pela agudeza do juizo, madureza do talento, e excellencia da fermosura, intelligencia das lingoas Grega, Latina, Italiana, Franceza, Ingleza, e Castelhana a primazia. Passando com faculdade real, em 6 de Julho de 1660 para Castella acompanhada de sua Mãy, e Tio D. Antonio de Lancastro conciliou os affectos, e veneraçoens das primeiras pessoas da Corte de Madrid attrahidas da suavidade do seu genio, e subtileza do juizo que competiaõ com a coroada origem do seu nacimento. Os Ministros a consultavaõ nas materias de Estado como Oraculo seguindo sempre as suas maximas prudentes, e judiciosas. Foy versada em todo o genero de erudiçaõ sagrada, e profana, e dotada de memoria taõ feliz que recitava de cor todo o Psalterio. Por morte de seu irmaõ o Duque D. Raimundo sucedida a 5 de Novembro de 1666, lhe foy adjudicada a grande Casa de Aveiro por sentença proferida a 20 de Outubro de 1679, com condiçaõ de a naõ poder gozar sem assistir em Portugal, e posto que intentou restituirse a este Reino para estabelecer a Casa em seus filhos o naõ pòde executar. Cultivou com grande fervor todas as virtudes que lhe canonizaraõ a memoria na posteridade. Ao celebre Sanctuario de N. Senhora de Guadalupe pagava o feudo de huma larga esmóla em o dia da Natividade da Senhora remetida por quatro peregrinos vestidos á sua custa. Com apostolico zelo dispendia grande copia de dinheiro para sustentaçaõ dos Missionarios da Serra Lioa, China, e Japaõ dezejando que toda a idolatria abjurando a sua cegueira adorassem ao Redemptor Crucificado. Era cordialmente devota do Sacratissimo Rosario, mandando repartir annualmente muitas esmolas aos pobres do Estado de Maqueda, e Villa de Torrijos, para que concorressem a rezallo interessando ao mesmo tempo os espiritos, quando utilizava os corpos. Enfermando de huma Erysipela maligna que degenerou em Gangrena manifestou a varonil constancia do seu animo naõ dando o menor sinal de sentimento na violenta operaçaõ do corte de hum pé. Recebidos os Sacramentos com summa piedade falleceo ás duas horas da tarde do Sabbado 9 de Fevereiro de 1715, quando contava 85 annos de idade deixando admirados os circunstantes da catholica resignaçaõ, e heroica fé com que entre affectuosos colloquios repetio até o ultimo suspiro os Santissimos Nomes de JESUS, e MARIA. Foy conduzido o cadaver com magnifica comitiva ao Mosteiro de Guadalupe, onde se lhe fizeraõ sumptuosas Exequias, e no fim recitou a Oraçaõ funebre o Mestre Fr. Joaõ Logrosan. Sepultou-se debaixo do arco principal da Capella mor da prodigiosa Imagem da Senhora de Guadalupe entere a sepultura de sua Mãy, e seu irmaõ o Duque Dom Raimundo com esta incripçaõ, composta por ella que mais declara a piedade do seu animo, que o esplendor da sua origem.

Maria de Guadalupe, Lancastro, e Cardenas mandose enterrar en esto lugar debaxo de los pies de la Imagem centro de su amor, y esperança.

In nidulo meo moriar, & sicut palma multiplicabo dies.

Desposou-se em o anno de 1665 com Dom Manoel Ponce de Leon VI. Duque da Cidade de Arcos, Conde de Baylon y de Cesares, Marquez de Zara y de Elche, Alcaide mór de Sevilha, Comendador mòr de Castella, de Carriaõ, e de Calatrava a Velha, de quem teve Dom Joaquim de Guadalupe Lancastro y Cardenas Ponce de Leon, que nacendo a 22 de Julho de 1666 falleceo a 18 de Dezembro de 1728. Foy VII. Duque de Arcos, Gentil-homem da Camara de Carlos II. Conselheiro de Estado de Filippe V. e Capitaõ General do Reino de Valença. Casou duas vezes a I. com D. Tereza Henriques irmãa de Joaõ Thomaz Henriques XI. Almirante de Castella, a qual morreo a 5 de Abril de 1716; e a 2. com D. Anna Maria Spinola de Lacerda irmãa inteira de D. Ambrosio Spinola V. Marquez de los Balbazes Embaixador extraordinario na Corte de Portugal, e Estribeiro mór da Princeza das Asturias, de quem teve numerosa descendencia: D. Gabriel de Lancastro nacido a 9 de Agosto de 1667 Duque de Banhos, e depois VIII. Duque de Aveiro, cuja grande Casa lhe foy julgada a 22 de Fevereiro de 1720, da qual tomou posse a 27 de Mayo de 1732. Falleceo em Lisboa ás 7 horas da manhã a 23 de Junho de 1745. D. Izabel Zacharias Ponce de Leon e Lancastre, que casou a 25 de Março de 1688, com Dom Antonio Martim de Toledo Beaumont Henrique de Ribera y Manrique IX. Duque de Alva, Guesca, e Galisteo, e IX. Duque de Ossorno, Leria, Salvaterra, Marquez de Villa-Nova del Rio, Alcaide mór de Carmona, Condestavel, e Chanceller mór de Navarra, Embaixador a Roma, e Pariz, onde morreo a 27 de Março de 1711. Passou a segundas vodas com Dom Francisco Gonzaga Duque de Solferino, Gentil-homem da Camara de Filippe V. com exercicio, de quem naõ teve sucessaõ. Compoz a Senhora D. Maria de Guadalupe.

Exercicio devoto. Nelle pedia a Deos huma virtude para todos os dias da semana interpondo para alcançalla o patrocinio de todos os Santos.

Em tres caixas que se abriraõ depois de morta, que estavaõ collocadas debaixo da Imagem da Senhora de Guadalupe se vio em huma hum coraçaõ de prata com esta Quintilha composta por sua fervorosa piedade, e ardente devoçaõ.


Jesus en la Cruz clavado
Moriendo por darme vida
Encended mi amor elado,
Que por mi sacrificado
Solo esto dexaes que pida.

Na segunda caixa estava hum papel, e nelle escrito estes solidos documentos dictados pelo espirito desta Heroina. Fide Deo, disfide tibi, fac propria, castas funde preces, paucis utere, magna fuge, multa audi, dic pauca, tace abdita, disce minori parcere, maiori cedere, ferre parem, sto tui victrix, Caelum pete, sperne caduca soli discere Deo vivere, disce mori. S.C. haec peccatorum scala est mea Maria, fiducia, & meorum haec tota ratio spei meae.

Na terceira caixa sobre dourada se achou outro papel, e nelle escrito com o proprio sangue da Senhora D. Maria de Guadalupe estas ardentes vozes a MARIA Santissima. Amo, & amare volo Mariam Dominam meam tota anima, tota mente, totis viribus meis, toto corde, & ab hoc tam sancto, & pulcro amore non cessabo in aeternum. Amen. Sanctissima Virgo Mater Dei consecro, offero, dico, & dedico Sanctissimae voluntati, & servitio tuo me totam in holocaustum, in filiam, servam, & perpetuum mancipium, hoc est animan, & libertatem meam, potentias, sensus interiores, & exteriores: cor meum, corpus, vitam sanguinem meum, appetitum sensitivum, irascibilem, & concupiscibilem, passiones cum actibus suis. Dignare hoc servitutis meae Sacrificium in odorem suavitatis per amorem Filii tui, per misericordiam, botitatem, & benignitatem tuam per quasi infinitam maternitatem tuam. Amen, fiat, fiat, amen, amen. Quarta decima Maii 1684. Maria de Guadalupe.

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