J. Lucio D'Azevedo, ed. Cartas do Padre António Vieira.Tomo I. (Coimbra: Imprenta da Universidade, 1925): 259-268.

PRIMEIRA JORNADA A ROMA
(FEVEREIRO A JUNHO DE 1650)

Não logrando obter a segurança do trono pela aliança francesa, tentou D. João IV alcançá-la directamente do adversário, e para tal fim propôr em Castela o matrimónio recusado por Mazarini e Ana de Áustria. Mais uma vez foi o Padre Vieira o emissário escolhido, agora, porém, sem credenciais, e incumbido de urdir na sombra um ajustamento que teria levantado protestos, sabido em Portugal. Nada menos que reunir de novo as coroas da Península, pelo consórcio do Príncipe D. Teodósio com a Infanta D. Maria Teresa, filha então única de Felipe IV. Como satisfação ao patriotismo português, punha-se a condição de ficar sendo Lisboa a capital da monarquia unida, quando juntos os dois Estados, por morte dos soberanos reinantes, em herança comum dos noivos.

Para o êxito da empresa, havia de descobrir o Padre o projecto, como seu, aos jesuítas castelhanos, sondar por meio dêles o embaixador, e achando fácil o caminho dar os primeiros toques à negociação. Ao mesmo tempo, e para coagir o gabinete de Madrid a entendimento, devia êle secretamente estimular os propósitos de nova rebelião em Nápoles, contra o domínio espanhol, fazendo constar aos conjurados que o govêrno português ajudaria ao movimento, e facultando-lhes dinheiro por um intermediário.

Mal lhe ia saindo a aventura porque, aos primeiros rumores da proposta, o embaixador, Duque del Infantado, o forçou a deixar precipitadamente Roma, com ameaça de morte, no caso de não abandonar logo a cidade e a Itália, cominação que pelo Geral da Companhia lhe foi transmitida.

Durante o tempo que esteve em Roma, não descurou Vieira de procurar providências em favor dos cristãos novos, seus protegidos [end of p. 259] de sempre; mas disso só temos notícia mais tarde. A ausência de Lisboa foi de quási seis meses. Partiu do Tejo, com destino a Liorne, a 8 de Janeiro de 1650, e regressou em Junho, data não conhecida. Na ida arribou a Barcelona, que dominavam os franceses. De lá temos carta sua para o Secretário de Estado. Outra carta de Roma, aonde chegou a 16 de Fevereiro, escrita em Maio, para o Príncipe, incitando-o atomar as armas, quando em Lisboa se temia um assalto da armada inglesa; mais outra carta, do mês seguinte, para o Rei, com as correntes novidades políticas: eis tudo quanto se tem até agora colhido dêsse período. Da negociação tentada veio a saber-se, muitos anos depois, pelo sermão, na Baía, em acção de graças por ocasião do nascimento do Infante D. António, filho de D. Pedro [No tômo II.o, da I.a Ed.] O acto do Duque del Infantado, que motivou a retirada, ou melhor a fuga, de Roma, é conhecido pelo rol dos serviços, alegados por Vieira em um memorial a favor de Gonçalo Ravasco, seu sobrinho [Impresso em Obras Inéditas, 3.o, pág. 81].

A última carta da presente série devia ter precedido poucos dias a saída de Roma. [End of p. 260].

 

[p. 261]

CARTA L
A Pedro Vieira da Silva(1)
1650-Janeiro 23

Escrevo esta por via de França para avisar a V.M.cê como fico arribado em Barcelona, onde cheguei sábado 21 do corrente, treze dias depois de partir dêsse pôrto, e já estivera no de Liorne, segundo nos forma favoráveis os tempos; mas apesar de tudo nos meteu aqui o capitão do navio, que é natural desta terra, onde sem dúvida nos detivera muitos dias, se o governador o não obrigara a sair. Hoje nos tornamos a embarcar; quererá Deus que nos acompanhem os mesmos ventos que ainda vão continuando, pôsto que com receios de se mudarem, por estarmos em vésperas de lua nova.

As novas que posso dar a V.M.cê de Catalunha, são haver um ano que lhe falta vice-rei; está nomeado o Duque de Mercúrio (2), e sôbre não acabar de chegar se fala vàriamente: tem-se pela causa mais verdadeira não querer ou não lhe poder dar hoje França o sem que êle não há-de vir. Entretanto governa a guerra Mr. de Marcin, francês (3), [end of p. 261] o político D. José de Margarit, catalão; e a um e outro assiste sem título o bispo de Maria (1), uma das melhores cabeças de França.

A êle e ao governador ouvi falar sôbre as cousas de Portugal, com uma notícia tão inteira de tudo, e com circunstâncias tão particulares, tão miúdas e tão interiores, que afirmo a V.M.cê fiquei igualmente espantado do muito que sabem de nós, e magoado da pouca notícia que nós temos dêles e dos mais.

O poder que tem França em Catalunha não arriba de dos mil cavalos e até catorze mil infantes nos presídios, sustentando tudo há mais de um ano à custa do principado. As conseqùências que daí tiram os catalães, e as que nós podemos tirar, deixo ao discurso de V.M.cê. Com êste tão pequeno poder se atreveu o Marquês de Marcin a ir esta semana intentar uma entrepesa sôbre Tarragona; havia de ser na noite de ante-ontem, e não se sabe até agora mais que haverem-se ouvido tiros pela madrugada, sinal de que foram sentidos.

Os dias passados saíram os castelhanos da mesma Tarragona sôbre esta parte de Barcelona, que só dista onze léguas, com un exército de dez mil infantes e três mil e quinhentos cavalos, esperando que, com a vizinhança dêste poder, haveria quem tomasse a voz de Castela nesta cidade; mas no mesmo ponto foram lançadas dela e levadas a França, e a outras partes, todas as pessoas principais de que havia qualquer suspeita, pôsto que a nenhum se lhe provou, nem averiguou culpa; e com êste desengano se retirou outra vez para Tarragona o exército castelhano, [end of p. 262] desmantelando sòmente as fortificações de alguns lugares pequenos que estão junto à marinha, sem executarem hostilidade alguma, nem nas pessoas, nem nas fazendas, porque o seu intento era ganhar com bom tratamento os ânimos dos catalães, e a êste fim quási todos os cabos do exército eram naturais da Catalunha, como também o é D. João de Quaray, a cuja ordem vinha tudo.

O coleitor que aqui está, que é boa pessoa e desejoso de ser promovido para êsse reino, me deu a nova do Cardial Albernós ser morto; com que teremos menos em Roma um grande inimigo. Estava seu hóspede o Duque del Infantado, que não havia muito era chegado com seu tio o Padre Gonçalves de Mendoça. Saíu por Geral da Companhia o Padre Francisco Picolomini, senense, e se fizeram também todos os Assistentes, menos o de Portugal, cuja eleição se suspendeu até à chegada dos padres portugueses, que ainda que partiram tarde parece que irão a tempo. Eu o não tenho para ser mais largo. Guarde Deus a V.M.cê muitos anos como desejo. Barcelona, 23 de Janeiro de 1650.

António Vieira.

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CARTA LI
Ao Príncipe D. Teodósio (1)
1650-Maio 23

 

Senhor.--Meu Príncipe e meu senhor da minha alma. --Pelos avisos que vão a S.M. entenderá V.A. com que [end of p. 263] coração escrevo esta, e muito mais com que raiva e com que impaciência, vendo-me preso e atado para não poder em tal ocasião ir-me deitar aos pés de V.A., e achar-me a seu lado em todo o perigo. Mas eu romperei as cadeias quanto mais depressa me fôr possível, e partirei voando, se não a fazer companhia nos trabalhos do princípio, ao menos a ter parte nas glórias e alegria do fim; que êstes são os passos por onde se hão-de encaminhar os sucessos e felicidades dêste fatal ano, ou seja a guerra só em terra, ou só no mar, ou juntamente em ambas as partes; porque o meu roteiro não especifica o género nem as particularidades dela, empregado todo em referir, admirar e celebrar as vitórias.