J. Lúcio D'Azevedo, ed. Cartas do padre António Vieira. Tomo Terceiro. Coimbra: Impresa da Universidade, 1928. pp. 474-476.

CARTA CXCI

Ao Marquês de Gouveia

1683 -- Junho 24

Ex.mo Sr. -- Como outras das que escrevo nesta ocasião a V. Ex.a são de diferentes matérias, seja esta toda eclesiástica.

Chegou o nosso Arcebispo, quando já se não esperava a sua vinda êste ano, antes se suspeitava que a eficácia do mesmo patrocínio, que o promoveu a esta mitra, era a que o dilatava, para que sem passar o mar chegasse ao pôrto. Emfim aportou na Baía, onde foi festejado com iguais aplausos aos desejos e ânsias com que era esperado. Deteve-se um dia no mar, onde logo fui saber dêle novas de V. Ex.a, e ao terceiro fez sua entrada à Sé, e dali se recolheu a sua casa, sem o fazer à sua Religião nem a outra, como era costume, com que agradou a todos. Nêste colégio, a que fez a segunda visita, depois de ir a S. Francisco, foi recebido com orações e poemas em todas as línguas, e esteve o assunto tão elegante como próprio, por não ser mais nem melhor lisonjeado um papa. Vai governando com grande aprovação de todos.

Dei-lhe as graças pela aprovação do terceiro tômo [Dos Sermões.], na qual se vê bem que foi feita a V. Ex.a e não ao meu livro, e lhe disse que a havia de mandar tirar dêle, porque tudo o que se lesse depois era fôrça que parecesse mal, pois o que se dizia era tão diferente e levantado estilo, que mais parecia escrito para escurecer a obra que para louvar o autor.

Não julguei que o segundo sermão de Santo António houvesse de ser mal recebido, caindo aquelas sombras sôbre as luzes do outro. Todos os autores das mais famosas nações do Mundo, escrevendo da sua, as notam da inveja, que por ser vício primogéntio da altiveza e da generosidade, entenderam que não desdouravam muito com êle as mesmas nações. Assim o fizeram gregos e romanos, e nos espanhóis e portugueses se lêem sem repreensão semelhantes exemplos. Quarenta e dois anos há que preguei em S. Mamede êste mesmo assunto, e ninguém então se queixou de mim; antes o aplaudiram todos os queixosos, que pela maior parte são os mais beneméritos. Contudo, sem fazer caso desta nem de nenhuma outra razão, me sujeitei logo ao parecer de V. Ex.a, e em lugar daquele sermão vai outro para suprir o número [O segundo sermão de Santo António em Roma foi despois incluído no t. 12.o].

O mesmo juízo faço do sermão que a V. Ex.a pareceu menos mal que os outros daquele tômo, pôsto que não sei qual seja o que teve esta ventura. Por uma circunstância que me refere Francisco Barreto, dizendo-me que V. Ex.a o mandara ler, entendo que é o sermão do Banquete; mas êste, como êle aponta, é de uma dominga da quaresma; e assim não posso atinar qual seja. O certo é que nenhum dêstes dois sermões era naquele tômo o meu mimoso, nem agora me admiro da diferença; porque deve supor V. Ex.a que os meus ditames nêste ermo são todos como os dos primeiros oito dias, quando saía dos exercícios, em que V. Ex.a dizia que se não podia falar comigo.

Na Universidade do México me dedicaram umas conclusões de toda a teologia, que eu remeto e dedico a V. Ex.a, e, pôsto que da emprêsa da fenix, das palmas, e das trombetas, nenhum caso faço, porque tudo é vento e fumo, não posso deixar de me magoar muito que no mesmo tempo em uma universidade de portugueses se afronte a minha estátua, e em outra universidade de castelhanos se estampe a minha imagem. Por certo que nem a uns nem a outros merecia eu semelhantes correspondências. Mais assim havia de ser, para que quanto em uma parte se faltou á justiça, tanto se excedesse na outra. E, para que não pareça que são isto influências da América, quando na que é sujeita a Portugal me fazem as afrontas, de que V. Ex.a será informado por outras vias.

Deus guarde e nos conserve a V. Ex.a muitos anos, como o mesmo Portugal, qual é, e os criados de V. Ex.a havemos mister.

Baía, 24 de Junho de 1683. --Criado de V. Ex.a

António Vieira.