J. L$uacute;cio D'Azevedo, ed. Cartas do padre António Vieira. Tomo Terceiro. Coimbra: Impresa da Universidade, 1928. pp. 452-454.

CARTA CLXXX

Ao Marquês de Gouveia

1682 - Mario 23

Sr. Marquês.--Apartando-se António Vieira dos pés do Sr. Marquês Mordomo-mór, caído de sua graça, como se havia ou devia tratar de aí por diante senão como morto?

Assim o fiz em um caso tão sem remédio, depois de aprovado e confirmado por quem só o podia impedir, não me deixando a sua ausência lugar para o recurso, nem a sua resolução liberdade para emenda. Alongar-me tanto da presença e favor de V. Ex.a é certo foi para com Deus o maior sacrifício, não tendo eu na vida outra cousa que lhe sacrificar; mas não me persuadi que para com V. Ex.a fôsse tão grande culpa. Contudo a confessei na última hora, a quem podia manifestar a V. Ex.a a minha tão grande como justa dor, não sem bastantes sinais de arrependimento. Duvidoso do perdão pelo que tinha experimentado, nem a pedi-lo a V. Ex.a me atrevi. Esta foi a causa do meu silêncio, tomando por castigo a perpétua sepultura.

Agora me referem tais demonstrações de clemência de V. Ex.a, e da antiga mercê e afecto com que V. Ex.a se dignava honrar-me, que não posso duvidar me tem V. Ex.a restituído ou ressuscitado à sua graça. E como poderei eu declarar o excesso de alegria e estimação com que recebi esta nova, senão com dizer, prostrado aos pés de V. Ex.a, que já vivo, e que já Deus me tem pagado o mesmo sacrifício com que desejei deixar tudo e a mim mesmo por Seu amor? Pague o mesmo Senhor, que só pode, a V. Ex.a esta tão mal merecida caridade, que não tem outro nome, e seja em conservar e aumentar a V. Ex.a por muitos anos a inteira saúde e vida, como eu nunca cesso de rogar a sua Divina Majestade em todos os meus sacrifícios e orações, que nêste deserto a que estou retirado, se não são mais fervorosas, são mais contínuas, e sempre com tanta suspensão e cuidado que, não me dando nenhumas novas do mundo, só as de V. Ex.a procuro e solicito em todos os navios que vêm dêsse reino.

Outras chegaram cá (para que dê conta de mim a V. Ex.a como dantes), as quais me quiseram encobrir ao princípio, mas deram tamanho eco, que foi fôrça chegarem-me aos ouvidos.(1) Não merecia António Vieira aos Portugueses, depois de ter padecido tanto por amor da sua pátria, e arriscado tantas vezes a vida por ela, que lhe antecipassem as cinzas e lhe fizessem tão honradas exéquias. Fez-me porém Deus tanta mercê, que nem com os primeiros movimentos senti um tão exorbitante agravo, o qual se me não havia de fazer, se os executores ou motores não estivessem persuadidos que antes lisonjeavam que ofrendiam a quem não fez a demonstração que devera.

Quiseram muitos que a fizesse eu, e que no primeiro navio mandasse impedir a impressão do livro que lá tinha chegado(2), e que não escrevesse mais na língua de uma nação que assim me tratava, antes o fizesse na castelhana, italiana ou outra estrangeira, em cuja piedade tinha mais seguro o crédito que na fria dos meus naturais. Eu, contudo, tive por mais conforme à vida ou morte que professo não alterar nada do exercício em que me tomou êste caso, e assim continuarei enquanto me não constar que V. Ex.a aprova o contrário.

Aqui não há outra novidade que a mudança do govêrno, em que a inteireza, desinterêsse e exemplo de vida e constância até o fim de Roque da Costa(3) deixará canonizada para sempre sua memória; e pode V. Ex.a dar crédito a êste meu testemunho, porque, fazendo-me as poucas vezes que nos encontrámos todo o favor, os que demais perto me tocavam lhe o não deviam (4). Ele se embarcou na mesma hora em que entregou o bastão e assim nã tenho lugar de estender mais estas regras, esperando não serão hoje menos aceites a V. Ex.a que no tempo e fortuna de que nunca perderei as saudades.

Ex.mo Senhor, Deus guarde a Excelentíssima pessoa de V. Ex.a muitos anos, como êsse reino e os criados de V. Ex.a havemos mister.

Baía, 23 de Maio de 1682.


António Vieira.

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NOTAS

1 Arruaça em Coimbra, onde um grupo de estudantes e gente baixa simulou um auto-da-fé, queimando nêle a figura que diziam ser do Padre Vieira. O caso devia ter relação com a contenda entre os cristãos novos e o Santo Ofício.

2 O tômo 2.o dos Sermões.

3 Roque da Costa Barreto, governador do Brasil, de 1678 a 1682.

4 O irmão, Bernardo Vieira Ravasco, Secretário do Estado do Brasil. Tinha êste representado em 1678 ao Conselho Ultramarino que o Governador lhe não guardava os privilégios, idênticos aos do Secretário da India. Um dêles era o de sentar-se nas sessões do conselho do govêrno em cadeira de espaldar. O Conselho Ultramarino não resolveu sôbre o assunto. (Consulta no Livro 5.o. das Consultas mixtas, fol. 182. Biblioteca Nacional de Lisboa).